segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CARTA DO PADRE JOSE COBLIM A DOM DEMETRIO, BISPO DE JALES / SP.

CARTA ABERTA A DOM DEMETRIO

Querido dom Demétrio

Quero publicamente agradecer-lhe as suas palavras esclarecedoras sobre a manipulação
da religião católica no final da campanha eleitoral pela difusão de uma mensagem
dos três bispos da comissão representativa do regional Sul I da CNBB condenando a
candidata do atual governo e proibindo que os católicos votem nela. Graças ao senhor,
sabemos que essa divulgação do documento da diretoria de Sul 1 não foi expressão
da vontade da CNBB, mas contraria a decisão tomada pela CNBB na sua ultima
assembléia geral, já que esta tinha decidido que os bispos não iam intervir nas eleições.
Sabemos agora que o documento dos bispos da diretoria do regional Sul 1 foi divulgado
no final de agosto, e durante quase um mês permaneceu ignorado pela imensa maioria
do povo brasileiro. Agora, dois dias antes das eleições, um grupo a serviço da campanha
eleitoral de um candidato, numa manobra de evidente e suja manipulação, divulgou com
abundantes recursos e muito barulho esse documento, criando uma tremenda confusão
em muitos eleitores. Pela maneira como esse documento foi apresentado, comentado
e divulgado, dava-se a entender que o episcopado brasileiro proibia que os católicos
votasse nos candidatos do PT e, sobretudo na sua candidata para a presidência. Dois
dias antes das eleições os acusados já não podiam mais reagir, apresentar uma defesa
ou uma explicação. Aos olhos do público a Igreja estava dando o golpe que sempre se
teme na véspera das eleições, quando se divulga um suposto escândalo de um candidato.
Era um golpe sujo por parte dos manipuladores, já que dava a impressão de que o golpe
vinha dessa feita da própria Igreja.

Se os bispos que assinaram o documento de agosto, não protestam contra a manipulação
que se fez do seu documento, serão cúmplices da manipulação e aos olhos do público
serão vistos como cabos eleitorais.

Se a CNBB não se pronuncia publicamente com muita clareza sobre essa manipulação
do documento por grupos políticos sem escrúpulos, será cúmplice de que dezenas
de milhões de católicos irão agora, no segundo turno votar pensando que estão
desobedecendo aos bispos. Seria uma primeira experiência de desobediência coletiva
imensa, um precedente muito perigoso. Além disso, certamente afetará a credibilidade
da Igreja Católica na sociedade civil, o que não gostaríamos de ver nesta época em que
ela já está perdendo tantos fiéis.

Se o episcopado católico deixa a impressão de que a divulgação desse documento nessa
circunstância representa a voz da Igreja com relação às eleições deste ano, muitos
vão entender que isso significa uma intervenção dos bispos católicos para defender o
candidato das elites paulistanas contra a candidata dos pobres. Os pobres têm muita
sensibilidade e sentem muito bem o que há na consciência dessas elites. Sabem muito
bem quem está com eles e quem está contra eles. Vão achar que a questão do aborto é
apenas um pretexto que esconde uma questão social, o desprezo das elites, sobretudo
de São Paulo pela massa dos pobres deste país. Milhões de pobres votaram e vão votar
na candidata do governo porque a sua vida mudou. Por primeira vez na história do país
viram que um governo se interessava realmente por eles e não somente por palavras.
Não foi somente uma melhoria material, mas antes de tudo o acesso a um sentimento
de dignidade. “Por primeira vez um governo percebeu que nós existimos”. Isso é o
que podemos ouvir da boca dos pobres todos os dias. Um povo que tinha vergonha
de ser pobre descobriu a dignidade. Por isso o voto dos pobres, este ano, é um ato
de dignidade. As elites não podem entender isso. Mas quem está no meio do povo,
entende.

Os bispos podem lembrar-se de que a Igreja é na Europa o que é, porque durante mais
de 100 anos os bispos tomaram sempre posição contra os candidatos dos pobres, dos
operários. Sempre estavam ao lado dos ricos sob os mais diversos pretextos. E no fim
aconteceu o que podemos ver. Abandonaram a Igreja. Cuidado! Que não aconteça a
mesma coisa por aqui! Os pobres sabem, são conscientes e sentem muito bem quando
são humilhados. Não esperavam uma humilhação por parte da Igreja. Por isso, é urgente
falar para eles.

Uma declaração clara da CNBB deve tranqüilizar a consciência dos pobres deste
país. Sei muito bem que essa divulgação do documento na forma como foi feita, não
representa a vontade dos bispos do regional Sul 1 e muito menos a vontade de todos
os bispos do Brasil. Mas a maioria dos cidadãos não o sabe e fica perturbados ou
indignados por essa propaganda que houve.

Não quero julgar o famoso documento. Com certeza os redatores agiram de acordo com
a sua consciência. Mas não posso deixar de pensar que essa manipulação política que
foi a divulgação do seu documento na véspera das eleições, dava a impressão de que
estavam reduzindo o seu ministério à função de cabo eleitoral. O bispo não foi ordenado
para ser cabo eleitoral. Se não houver um esclarecimento público, ficará a imagem de
uma igreja conivente com as manobras espúrias

Dom Demétrio, o senhor fez jus à sua fama de homem leal, aberto, corajoso e
comprometido com os pobres e os leigos deste país. Por isso, o senhor merece toda
a gratidão dos católicos que querem uma Igreja clara, limpa, aberta, dialogante.
Demonizar a candidata do governo como se fez, baseando-se em declarações que
não foram claras, é uma atitude preconceituosa totalmente anti evangélica. Queremos
continuar confiando nos nossos bispos e por isso aguardamos palavras claras. Obrigado,
dom Demétrio.

José Comblin, padre e pecador.

5 de outubro de 2010

Um comentário:

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