sábado, 24 de outubro de 2009

Intelectuais de Revólver

O Jornal da Tarde trouxe matéria nesta sexta-feira, 23 de outubro, com o título “Intelectuais de Revólver.” De acordo com o artigo, eles (os Policiais Militares) são vistos de fardas, manuseiam armas e convivem com a criminalidade no patrulhamento pelas ruas.

Fora dos quartéis e da correria diária nos batalhões, os PMs mostram como dedicam parte de seu tempo no aperfeiçoamento intelectual. À paisana, os chamados Praças (Sgt, Cb e Sd PM) ministram palestras, dão aula, fazem pós-graduação, participam de teatro, tocam em banda e até se especializam em desenhos gráficos. Tudo isso para manter a atualização. Veja histórias que poucos conhecem sobre os que tentam garantir a segurança da população.

Entre os vários entrevistados do Jornal da Tarde está o Cb PM Antônio Carlos do Amaral Duca, 45 anos, que sonha em conquistar a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e atuar na área criminal. “Eu acho muito bonita a parte do júri.

Pretendo advogar”, revela. Enquanto isso não acontece, Duca, que está há 23 anos na corporação, ocupa o cargo de Vice-Presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar de São Paulo.

Formado em Direito, Pós-Graduado na Escola Superior do Ministério Público em Direito Penal, Mestrando em Direito Empresarial e ex-professor universitário da Unip, Duca consegue trabalhar na vice-presidência e ainda atender à comunidade.

“São pessoas que costumam ligar com frequência pedindo ajuda sobre questões jurídicas. E eu ajudo sem problemas porque tenho experiência e gosto.” O gosto pelo Direito vem do passado e sua família atua na área.

“Estudar abre a mente e conseguimos adquirir uma visão diferente da sociedade.” Seus quatro filhos estão praticamente seguindo o mesmo caminho, mas deixaram a PM de lado. “Eu tenho um filho advogado, outro formado em Direito, outra que faz veterinária e um está no segundo grau.”

Para Duca, o trabalho do Cabo vai além da farda. “Eu estou sempre fazendo coisas diferentes para me atualizar.”

O Cb PM Luiz Roberto de Aguiar, 47 anos, é formado pelo Instituto Brasileiro de Filosofia; e dedica o tempo livre às crianças de uma escola particular na zona Norte.

“É uma filosofia voltada para aprender, educar e evitar as drogas”, conta. Fora da classe ele não deixa de ensinar e nem de brincar. No mês passado participou de um teatro com os alunos.

Até aceitou assumir o papel de Soneca na peça A Branca de Neve e os Sete Anões. Em troca, conseguiu arrecadar alimentos para asilos na zona norte da capital. “Eu me sinto realizado, mas sempre procuro conhecer algo a mais na minha vida.

E mesmo dentro da polícia eu consigo tornar a comunidade próxima”, conta ele. Antes de ser policial, trabalhava em uma agência de propaganda, até ficar desempregado e entrar na PM. Quando não está de prontidão no 9º Batalhão ou dando aulas, Aguiar passa a ser aluno na Universidade Luterana do Brasil.

Lá, ele está prestes a concluir o curso de Pedagogia. “Eu gosto muito de educação. Na polícia, trabalhei em programas em escolas e vivo ensinando quem precisa de ‘ouvido’.”

Pai de sete filhos (quatro de coração), Aguiar dá lições de religião. Evangélico, dá orientações a casais que estão em conflito. “Quando pego ocorrência de briga de casal, eu peço licença e os convido para um programa espiritual.”

Recentemente, o Sd PM Daniel Gonzaga, 37 anos, ficou frente à frente com o racismo.

A ocorrência, até então inédita ao longo dos seus dez anos de carreira, o chocou. “É lamentável esse tipo de conduta”, afirma.

A situação acabou sendo tirada de letra, até porque ele não deixou de se basear na experiência conquistada fora do patrulhamento. Ele é pós-graduando em História da África. No meio da ocorrência, o PM descobriu que o vizinho de uma escola no Campo Belo, zona Sul, era o suspeito da injúria racial.

O bairro é justamente onde o Sd PM trabalha na Ronda Escolar. “É triste, pois a educação é tudo para a formação do ser humano.” Quando deixa as ruas, ele equilibra seu tempo entre a sede do 12º BPM/M e o curso, aos sábados.

No passado, também fez letras. “Tem de abrir o leque. Não dá para ficar em letargia e deixar a oportunidade passar”, avalia. Em dias de folga, o Sd PM corta até cabelos. “Sou cabeleireiro afro.

Agora o trabalho está reduzido; fechei o salão, mas fiz curso e corto cabelo só dos mais chegados.” E ainda há espaço para o esporte em sua agenda. “Sou mestre de capoeira e pratico desde os sete anos.”

Vindo de uma comunidade simples da zona Sul, filho de mãe solteira, Daniel Gonzaga se orgulha de ser PM, mas quer mais: “Gosto dos cursos de Psicologia e Política.

Ser voluntária e pedagoga faz parte de um conjunto de realizações na trajetória da Sd PM Maria do Socorro Pereira Santos Lenk.

Ao mesmo tempo em que concluía o antigo Centro de Formação de Soldados (atual Escola Superior de Soldados, conforme publicação do Decreto nº 54.911, em 14 de Outubro de 2009) que a preparou para ingressar na Polícia Militar, ela fez Magistério por causa do carinho que tem por crianças. Chegou a ser inspetora de alunos, mas desde a infância queria mesmo era ser policial.

Já formada, sentiu que precisava “renovar” a carreira e optou pela Pedagogia. “Ficava enlouquecida”, diz. “Precisava cumprir minha escala e ir à faculdade. Às vezes chegava na segunda aula, mas tudo deu certo. Nunca desisti.”

Atualmente, a Sd PM Maria do Socorro Pereira Santos Lenk trabalha na Diretoria de Polícia Comunitária, onde consegue aplicar os ensinamentos de Pedagogia.

Mas já exerceu um serviço externo na região do Parque Peruche, zona Norte, onde fazia o Policiamento Comunitário. “Foi complicado. As pessoas resistiram um pouco a presença da PM naquele local. Aí eu pensei: vou ter de encarar isso.”

O resultado foi exatamente como Lenk esperava. Ela e seus colegas de farda conseguiram levar música à criançada do bairro.

Em multirões, conseguiu doação de instrumentos e ganhou a confiança dos moradores. “Eu saía de férias e os moradores ligavam para o meu Comandante me pedindo de volta”, lembra.

Seu trabalho no Parque Peruche terminou em 2004. Porém, o apego pela comunidade fez com que ela deixasse o atual serviço no quartel e seguisse uma vez por semana como voluntária da Casa de Amparo ao Pequeno São João Batista.

Ali são atendidas crianças vítimas de maus-tratos e opressão. Elas dormem na casa. Para que a entidade se mantenha aberta, a Sd PM Lenk sai pedindo roupas usadas nas casas, as leva para lavar e passar e depois as coloca em exposição para venda. “Eu faço isso com muito gosto”, diz Lenk, que é mãe de três filhos.

Há dez anos na Polícia Militar, o Sd PM Natanael Deiró Nascimento, 32 anos, éligado mesmo à parte de designer.

Mesmo dentro da Corporação, ele consegue colocar em prática os ensinamentos adquiridos nas salas de aulas fora da PM.

Atualmente, Nascimento trabalha na área de propaganda institucional, no quartel da Luz. “Gosto de desenhar desde criança.

Sou apaixonado por caricaturas”, diz o Sd PM, formado pela Acedemia Brasileira de Artes e pela Faculdade de Designer de Mídia.

Recentemente, ele ainda concluiu Pós-Graduação em Design Gráfico. Quando sobre tempo, o policial realiza trabalhos free lancer (profissional autônomo) para agências de publicidade.

“Aprendi a fazer pintura à mão e, depois, passei para pintura digital. Como não tinha um emprego fixo, entrei para a PM e consegui fazer duas coisas que gosto.

Hoje posso dizer que estou satisfeito e realizado por fazer o que gosto.” E as atividades do policial não param. Ao chegar em casa, Nascimento ainda ensaia com uma banda de rock que leva seu sobrenome “Deiró.” Toda violão, guitarra, é vocalista e compõe músicas.

A banda é formada por outros parentes. “Eu faço cover em bares e toco em festas de casamento.” No futuro, um sonho: “Dar aula para universitários”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Faça aqui o seu comentário.